sexta-feira, 25 de março de 2016

Perfumes só de homem ou mulher. Há cada vez mais fragrâncias sem genero

Perfumes só de homem ou mulher. Há cada vez mais fragrâncias sem genero

Perfumes só de homem ou mulher. Há cada vez mais fragrâncias sem genero



Flor é cheiro feminino e almíscar masculino, é o que diz a tradição. Mas se combatemos o estereótipo azul é para menino e rosa é para menina, estaremos prontos para fazer o mesmo com o nosso perfume?

O olfato é um dos sentidos mais poderosos do corpo humano, diretamente ligado às emoções, sentimentos e memórias, daí que não seja de espantar que a indústria da perfumaria alcance, anualmente, receitas milionárias. Em 2013, esse valor foi de 27 mil milhões de euros e tem vindo a crescer de ano para ano, estimando-se que, em 2018, esteja a rondar os 41 mil milhões de euros. São muitos zeros, tendo em conta que um perfume dura muito tempo e não é um produto que estejamos constantemente a comprar.

Que a beleza é um universo maioritariamente feminino já sabíamos, mas que 33% dos perfumes de homens são usados pelas mulheres é um dado interessante e que diz muito das tendências globais. Talvez seja um fenómeno da geração Y (nascidos nas décadas de 80 e 90) e dos Millennials que não se regem por rótulos. Estaremos nós a deixar de comprar, então, aquilo que uma etiqueta masculina ou feminina diz?

A era dos perfumes sem rótulos

Os perfumes unissexo não são necessariamente uma novidade. CK One de Calvin Klein foi o primeiro perfume a surgir no mercado com a legenda unisex, em 1994, baseado em notas cítricas que tendem a ser usadas por ambos os sexos. Mas outras marcas lhe seguiram os passos: Jo Malone, Tom Ford, Acqua di Parma, Hermès, Kiehl’s, Jean Paul Gaultier, entre outros. O site americano Racked, a propósito deste tema, fez um artigo onde recolheu opiniões de homens e mulheres sobre o mesmo perfume unissexo. Neroli Portofino, a fragrância unisex de Tom Ford, teve opiniões interessantes:

“Cheira a um homem rico em férias” (opinião feminina);
“É um cheiro viril, como uma virilidade europeia” (opinião masculina);
“É um cheiro forte, masculino mas há algo de profundo” (opinião feminina);
“Cheira a jasmim, talvez seja um perfume para a primavera porque parece-me muito feminino” (opinião feminina);
“Este perfume é ótimo, cheira a um homem limpo” (opinião masculina).

O engraçado nestas opiniões é que são completamente transversais. Há quem diga que é um perfume masculino. Há quem diga que é feminino. É a magia desta tendência das fragrâncias sem género. Não são demasiado femininas, nem demasiado masculinas. E isto vai completamente contra tudo o que se tem vindo a fazer há décadas e décadas, onde os perfumistas são educados em dicotomias tradicionais: rosas são para os cheiros femininos, almíscar para os cheiros masculinos. E se andamos a combater, ano após ano, a tradição “azul para os meninos e rosa para as meninas”, porque não aplicar a mesma ideia também aos perfumes que usamos?

Compramos pelo rótulo ou pelo aroma?

Kilian Hennessy, fundadora dos perfumes By Kilian, diz em entrevista à Fashionista que “o estado da indústria é de mau gosto. Dior ainda está a vender J’Adore, que saiu em 1999. Os clássicos têm de se readaptar a um novo reino porque o paradigma está a mudar.” E que reino é este? O reino onde as caraterísticas de um perfume ditadas pelo género estão a ser contrariadas e a balança está a pender para um mercado unissexo com que qualquer pessoa se pode identificar. E se pensarmos que os perfumes masculinos são tão apreciados pelas mulheres, faz sentido que possamos usar fragrâncias que contenham notas também para homens. Acaba por ser um equilíbrio.

Straight to Heaven é o perfume mais vendido de By Kilian e tem por base rum, patchouli e madeira de cedro — notas pesadas e masculinas. Não tem citrinos nem flores, notas clássicas nas fragrâncias femininas, mas a fundadora diz que é o segundo mais vendido entre as mulheres, o que mostra que quando o rótulo não diz se um perfume é de homem ou mulher, as pessoas escolhem de acordo com a emoção que o aroma exala.

Tendência de nicho ou o futuro da perfumaria?

Já em 2006, o New York Times falava de uma nova geração de pessoas entediada pelas interpretações convencionais de masculinidade e feminilidade e do crescimento de um mercado de aromas sem distinção de sexo. E se, na altura, este era um mercado de nicho sem hipótese de concorrer com os grandes bestsellers, a verdade é que as coisas estão a mudar. Em 2015, entre os perfumes mais vendidos estava Neroli Portofino, o unisex de Tom Ford. E em 2016, entre os grandes lançamentos do ano encontra-se CK2 de Calvin Klein — o lançamento acontece 20 anos depois de CK One, que viria a mudar a indústria da perfumaria para sempre.